Pobre coitada

Uma pobre qualquer
se apega piamente
a meros minutos de exposição
ao Português, Inglês,
seja um filme
ou uma miragem.

Pobre coitada
mede um metro e meio
e não sabe contar piada.

Em sua cabeceira
empilham-se cinco livros,
além de tudo,
uma prepotente.

Quem se acha?
Com um déficit de atenção
em peso,
mas a pobre mulher
quer ler.
Escrever.
Copiar.
Transformar.

Sua letra ninguém entende,
canhota, torta
e muito sem jeito.

Me pergunto
se ao engolir tantas letras
consegue sentir o gosto.
Falta tempo pra mastigar?
Ou tem muita cobiça
por se apressar?

Chuva de gêmeos
é chuva em dobro.
Dores nas costas
é exercício de louco.
Falta de whiskey
é quase coisa de morto.

Procuro vantagens?
Quando apareço do nada,
certamente estou escavando
por vantagem.
Ou estou disponível,
quem sabe.
Nem tudo é maldade.

A pobre menina-coitada-mulher
certamente busca por vantagens,
mas sem maldade.
Só um pouco de vaidade.

Colaboração?
Quem sabe.

Rua das Ninfas.
Rio Capibaribe.
Alto da Sé.
Sete anos longe
das ruas por onde andei.
Já voltei,
mas pobre menina mulher
sempre serei.

Menina não rói mais a unha,
mas morde cabeça de caneta
e quase quebra os dentes.

Garota pobre,
rica de suas viagens,
a é, rica de moedas:
pennies, quarters, dimes
e nickels.

Toda errada,
roupa amassada,
palavra falada.

Mas tem tanta coisa escondida.

Sem falar no passado,
que ela pica e repica.

Olha para trás
como se folheasse
uma revista,
é tão profissional nisso
que até lambe o dedo
para as páginas não se colarem.

Profissional de bobagem.

Larga isso
e vem pra cá,
deixa de besteira.

O destino tenta lhe falar.

Mas a pobre coitada
só quer rimar.

Besteira,
era só pra escrever mesmo.
Não sei por que
quer dar uma de cordel encantado,
mas é desencantada.

É legal rimar,
falar,
mas ela não sabe cantar.

Não conhece música boa,
seu instinto musical
é terrível.

Além de tudo,
uma menina
que não conhece de cultura.
Quer coisa pior?

Ela disse
que assistiu o filme de Elis Regina.
Ela quis cortar o cabelo
igual ao dela,
mas pensou que não.

Quem deu essa ideia a ela
foi o Ronaldo,
e a pobre menina
não gosta dessa coisa
de ser pau mandado.

Que Deus
e Elis Regina
me perdoem,
não quis dizer isso.

Aquela mulher
nunca foi pau mandado.

Mas a pobre coitada
da menina,
se cortasse o cabelo
igual ao da Regina,
estaria copiando.

Seria até mais pau mandado
do que o pobre pau-brasil,
que por aqui
pouco residiu.
Mandado foi
em barcos a mil.

A menina que chamo de pobre
pode ser enrolada,
preguiçosa,
prepotente,
ansiosa,
nervosa
e amassada,
pode não ser
musicalmente orientada.

Mas igual a ninguém
ela vai ser.

Continua pobre coitada,
mas a bicha é arretada.
Ela é ela mesma.
Eu sou eu mesma.
Sou Raíssa.
Às vezes sou Hashisha.

Sempre Haxixa.
Já fui Sharkr.

Tantos codinomes,
mas sempre, sempre, sempre
ela sou eu.

E ninguém mais
se iguala a eu.

Igual não existe.

Graças a Deus.


Este texto foi originalmente escrito em meados de Junho de 2024.

One response to “Pobre coitada”

  1. simplesmente maravilhosa, me emocionei te admiro tanto ❤️

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